Mugabe

Por mais importantes e meritórios que sejam as pessoas e os actos por elas praticados no passado, isso não lhes deve dar um livre-conduto para tudo o que queiram fazer no futuro. As bênçãos, tal como os pecados não são eternos.
mugabe-robert9Mugabe foi uma benção que libertou uma nação e o seu povo, um revolucionário e o líder que teve resultados económicos, sociais e até políticos que nem sequer foram almejados por quaisquer outros líderes de nações. O seu povo viu-o, e com justiça, como um herói. Foi tudo isso.
Agora é o oposto. Quem tiver tido oportunidade de conviver com o Mugabe destes últimos anos, tê-lo-á achado amorfo e pouco dado a emoções visíveis. É verdade, o que antes foi chama e revolução, agora é ego, insanidade e incompetência.
Mugabe deixou-se apanhar pelos defeitos de todos os homens, mas neste caso trágico, Mugabe teve o poder e até o mérito de um líder inigualável.
Mugabe foi tudo isso e agora é menos do que execrável, mesmo para os que sabem que a corrupção, atrocidades e incontáveis erros do seu país não lhe serão devidos na totalidade, mesmo para os que, como eu, têm a certeza que Mugabe é um homem bom. Mugabe é também dos piores homens que conheci.
Como quase todos os ditadores, Mugabe não conseguiu planear a sua partida. Se é triste e trágico ver o que pode acontecer a um homem bom e com boas intenções, é muito mais quando esse homem tem poderes e reverência de deus para o seu povo.
Conheço Mugabe suficientemente bem para lhe ter genuíno afecto, mas isto seria se apenas levasse em conta minha convivência com ele. Mugabe, como tantos ditadores, é um homem afável, mas também é um decisor pragmático e com princípios dúbios e pouco firmes. Se a culpa a atribuir-lhe pelas atrocidades no seu país, pode ser mitigada, a responsabilidade é inegavelmente sua.
Mugabe nunca teve sucessores e, talvez por isso, foi adiando, sempre por mais algum tempo, a sua saída da vida política, para finalmente se poder dedicar a ser o homem pacato que sempre se julgou. O que não lhe ocorreu é que os que antes dele tinham o poder, pensavam exactamente da mesma maneira.

Boa sorte Mugabe!
Longa vida para ti sedutor e execrável líder!

Catalóis (ou Espanhães)

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Cristo na Sagrada Família

Alguma Catalunha não quer ser Espanha, quer ser só Catalunha.

Percebemos os que acham que não pode simplesmente deixar-se que as várias regiões com tendências independentistas se separem do resto do país. Isto abriria possibilidade à completa desagregação de Espanha em pelo menos 3 ou 4 estados diferentes.

Para descobrirmos uma solução teríamos que ir à origem da nação Espanha e até ao conceito de país. Não iremos. Ficamo-nos pelo início do ano quando este “referendo” começou a materializar-se, primeiro na mente de alguns e depois nos actos de   muitos independentistas.

Se estivermos nos sapatos de Espanha é impossível que permitamos que uma das suas regiões simplesmente deixe de o ser. Nenhum país no mundo prevê a possibilidade legal de perder parte do seu território.

Mas se nos colocarmos no lugar da Catalunha e considerarmos que  Espanha é um opressor que governa sem direito, então faz o mesmo sentido lutar pelo seu “país Catalão”.

Para alguns defensores das independências espanholas o seu sentimento é o mesmo que teriam os portugueses se de repente Portugal fosse anexado por Madrid.

Sabendo que as disputas territoriais acabam tendencialmente em guerra, há que arranjar uma solução que atenue a escalada de violência que se avizinharia se se mantivessem as actuais posições.

Mas apenas para constatação de factos não seria necessário este texto. Importa arranjar soluções.

A solução, como quase sempre, está no diálogo. O diálogo inicial, por parte do governo central espanhol, deveria ter sido no sentido de impedir o referendo, mas sempre diálogo, nunca ameaça, nem opressão. Do mesmo modo a região da Catalunha deveria ter dialogado no sentido de ter um referendo legal e validado pelo governo central.

Estando o referendo feito e tendo pífia validade legal, mas tremenda importância política, está na hora de lidar com o problema. Impedir pela força a realização de referendos, ou outras actividades independentistas além de ineficaz é extremamente perigoso e potencialmente antidemocrático.

Um político hábil disse que “os problemas sem solução, como este da Catalunha, são para se ir gerindo”. Não sabemos se é assim, mas se a solução é um dos dois “países” perder o seu território, então de facto não há solução, a não ser pela opressão, ou até supressão de um deles.

Nenhuma destas “soluções” é aceitável. Assim sendo ter-se-á que descobrir outra. Isto é o que todos os que se engajam nestas lutas deveriam almejar. O objectivo tem que ser a solução e não a vitória.

A solução que hoje aqui propomos é a única que vemos viável mas, não é por acharmos que esta solução é a melhor, que deixamos de ouvir quaisquer outras, ou sequer que tentamos destruir as outras. Tentamos melhorá-la, roubando até ideias das outras soluções, defendemo-la, mas não temos que eliminar as outras, mesmo que para isso tenhamos que combater milénios de instintos que dizem que se eliminarmos a concorrência teremos sucesso mais facilmente. É verdade, mas queremos a melhor solução e não simplesmente eliminar todas as outras até que a nossa seja a única e, por isso, a escolhida.

A solução seria dar aos independentistas exactamente aquilo que quereriam: Uma espécie de estado probatório, com um número de anos predefinido, ao fim dos quais voltariam ao estatuto anterior após referendo e concordância de ambas as partes (Espanha e Catalunha).

A verdade, ou talvez a esperança que acalentamos, é que se descobriria que não é assim tão diferente ser Espanhol e Catalão ou ser só o segundo. As relações comerciais, sociais e até económicas seriam muito semelhantes com Catalunha independente ou não.

Assim sendo o que propomos é que se deixe que o Catalães decidam, mas num referendo democrático e ratificável.

Admitindo que a decisão seria a independência, então depois seriam necessários vários anos para que a transição se fizesse com a necessária serenidade.

Como sempre, ajuda pensar nos cenários mais extremos:

– A Catalunha separa-se de Espanha e corta todas as relações (sim, também acho que isso é muito pouco provável). Neste caso Espanha perderia a Catalunha, mas a Catalunha perderia a Espanha e todos sabemos que não é a solidão que faz a força.

– Fica tudo como está. Isso seria o tal “gerir do problema”. De facto pode também ser hipótese, mas nunca usando a força física. A pressão de ambos os lados pode e deve ser feita, mas sempre de forma leal e através da discussão de argumentos. Espanha e Catalunha estarão para sempre colados geográfica e historicamente, portanto não faz sentido virarem-se costas sob pena de estreitarem radicalmente a visão e visibilidade que neste momento ainda possuem.

Basta olhar para os casos históricos de separação de países para ver que invariavelmente corre mal; veja-se a Alemanha ou a Coreia.

Veremos o que o futuro trará, mas saibamos que juntos somos melhores. Em último caso, somos todos iguais, espanhóis, chineses ou turcos, cavaleiros de cristo ou jihadistas, comunistas ou fascistas, tudo é feito da mesma amálgama de carne, estupidez e, acima de tudo, humanidade, que, entre outras coisas, é também sinónimo de união.