Saber receber

LisboaComo muitos lisboetas cosmopolitas, gosto de ver turistas a apaixonar-se pelo nosso país, mas como muitos outros também fico frequentemente irritado com a presença massiva dos mesmos.

Numa conversa tida há poucos dias no Chiado, com um conhecido cronista e amigo, deparei-me com o dilema que tinha entre as suas posições de esquerda e a opinião real que tinha acerca do que chamou “Invasão de Brasileiros”.

Sendo um “homem de esquerda”, como gosta de retratar-se, a verdade é que tinha sentimentos que ele próprio descrevia como xenófobos para com o brasileiros. Isto acontece porque, segundo ele, em pouco mais de dois meses, houve uma enchente de quadros brasileiros a entrar para empresas portuguesas e, além disto, a quantidade de “portugueses com sotaque” que polulam nos cafés da baixa pombalina é cada mais impressionante.

É importante ter noção de que não existem xenófobos, nem racistas, nem machistas, nem outras coisas que tais. Todos temos tudo isto em nós e o seu oposto também.

Nada disto é especialmente mau, definitivo, ou sequer definidor.

Os actos efectivamente realizados e não o que pensamos fazer, são o que nos define.

Tal como não é traição para um homem casado pensar nas mamas da Pamela Anderson, também não é xenofobia pensar que os estrangeiros estão a ocupar o país.

Saibamos receber, como sempre soubemos, apesar de irritações que deverão ser necessariamente inconsequentes.

Partidos

Se fossemos todos menos inteligentes, talvez conseguíssemos viver com escolhas monocromáticas, por exemplo: Ter uma religião e, por isso, ser contra as outras. Ser de um clube e, por isso, ser contra os outros. Ter uma sexualidade e, por isso, ser contra as outras. As pessoas que são assim, são estúpidas!
InsertBrainNão tenho nada contra estúpidos, valorizo-os como quaisquer outros e, às vezes, até faço parte desse grupo, mas sem deixar de tentar sempre excluir-me.
Fazer das fraquezas força, não é o mesmo que ter orgulho nas fraquezas.
Percebo as simpatias clubísticas e até as picardias entre clubes, mas achar verdadeiramente que as pessoas de outro clube são diferentes só por isso… é estúpido.

Será preciso repetir tudo o que disse mudando “clubes” para “partidos”? Ou conseguiremos aprender com analogias?

 

 

Integridade (ou burrice)

Sou eu que sou burro?

Há uma indignação generalizada pelo facto de Ricardo Robles poder lucrar uns milhões com a venda de um imóvel.
Por alguma razão que desconheço, acha-se que ser de esquerda e ser capitalista não é conciliável. – Isto até pode ser uma discussão interessante, mas neste caso o essencial não é se o espécimen em questão é caviar ou podre.
Ricardo_RoblesRicardo Robles é vereador do urbanismo para a cidade na qual comprou um imóvel em 2014 por menos de 10% (347 mil euros) do valor que lhe é atribuído em 2017 (5,7 milhões de euros). Claro que é preciso contabilizar o investimento de 1 milhão de euros que segundo o vereador lá foi feito, mas uma valorização superior a 15 vezes do valor inicial é… invulgar! Isto não é ilegal, é só uma excelente capacidade de negociação!

É verdade que o dito vereador tem a vergonha de uma Cicciolina – lembro que o imóvel em questão foi comprado à segurança social -, mas mais chocante do que isso é o facto de tudo isto estar previsto na lei! Nada disto é ilegal!

Mas se um vereador pode fazer negócios destes no seu pelouro, o que é que impede o ministro da economia de jogar na bolsa? E um desportista de apostar contra si próprio? E um administrador público de vender património do estado por um valor várias vezes inferior ao real?
Pelos vistos nada!!

Aquele que não percebe como é que isto é possível e que se recusa a fazer coisas deste tipo quando tem oportunidade, deveria ser considerado integro e decente, mas afinal é só estúpido e ingénuo.

Oposição

Sabem o que é que era giro?

Deixar de chamar oposição aos partidos que não estão no exercício de funções governativas.

A função dos partidos, ao contrário do que se pensa, não é estar no poder ou no oposto a este. A verdadeira e nobre função é a causa pública.
Para se defender o que se acha certo para o bem comum, é preciso muitas vezes concordar com outras ideias que não as nossas. Parece uma lapaliçada, mas basta olhar as propostas e votações do nosso parlamento para se ver que a origem da ideia é muitas vezes mais importante do que a sua validade própria.