Valores

Hoje, em jeito de balanço, um alto funcionário de uma empresa de recrutamento, enquanto fazia o balanço do ano, vangloriava-se de ter contratado meio-milhar de pessoas, que colocou nas mais diversas posições.
A especialização é talvez o motor para que tudo seja feito com maior eficácia, mas será provavelmente também a razão para a quantidade impressionante de inutilidade que resulta de toda essa eficácia.

As empresas contratam empresas para recrutarem os seus trabalhadores, contratam empresas para fazer a limpeza, contratam empresas para levar água, para servir café, para limpar vidros, para fazer contabilidade, para desentupir canos, pôr óleo em dobradiças.

Enquanto a única coisa que importa a um CEO for fazer crescer lucros, não vamos conseguir ganhar como sociedade.
O dinheiro tem função, mas não valor em si próprio.
Empresas de fazer dinheiro, não têm qualquer valor, a não ser que os valores das pessoas se resumam a dinheiro.

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Herança

Qualquer governo decente deve ter procupações com um horizonte temporal de pelo menos 3 gerações.
Quando se faz algo a pensar no futuro devemos pensar no que deixamos aos netos dos nossos netos.

MãoVaziaIsto não significa que se deve sacrificar o presente em benefício do futuro, significa apenas que não se poderá fazer o contrário. Os benefícios e prejuízos deverão ser distribuídos pelas gerações.

Vivemos numa época de liberdades individuais e, talvez por isso, tendemos a pensar pouco num futuro com horizonte superior à nossa esperança de vida.

Temos pensar honestamente nos recursos que utilizamos e na forma como os repomos. O nosso saldo não termina nem começa com a nossa vida. A nossa situação deve-se em grande parte às circunstâncias anteriores, independentemente de serem boas ou não. Assim, será apenas natural perceber que o que deixamos influenciará os que ficam para sempre.

Decência parlamentar

Rui Rio, líder do PSD, já foi promessa de seriedade e, mesmo que apenas por alguns momentos, parecia que iria pôr princípios à frente da partidarite. Claro que isso foi ingenuidade, nunca seria possível chegar a líder de um partido de poder sem ter que ceder à corrupção inerente.

Luís Miguel Caçapa

Tiros, perseguição policial e álcool. A noite louca de um deputado do PSD-Madeira.

Ainda assim pede-se que haja pelo menos aparência de decência. O que é que Rui Rio está à espera para condenar este comportamento?


A ser verdade, a notícia de Márcio Berenguer no Público, então o deputado Luís Miguel Calaça já devia ter esclarecido o assunto e, porque não, assumir a sua estupidez.

No dia em que os deputados se comportem como indivíduos com deveres morais e sociais acima da média, poderão assumir os seus erros e ganhar crédito com isso. Até lá exijamos um mínimo de decência; não muita, só o mínimo.

Jornalismo (ou dormir)

22 Novembro 2017. (Patrícia de Melo Moreira/AFP/Getty Images)

O presidente de Cabo Verde (o paraíso na terra) esteve em Portugal e participou, juntamente com Marcelo Rebelo de Sousa, numa acção de voluntariado no Banco Alimentar.

Se Donald Trump soltar um gás, os telejornais abrem de imediato com repórteres em directo para avaliar o impacto ambiental da bufa presidencial. Como a economia de Cabo Verde é irrelevante quando comparada com a de outros colossos mundiais, acha-se que alguém que fez mais pela justiça e democracia de vários países (Cabo Verde, Portugal, Timor-Leste) e que têm ainda a humildade de ir “ajudar” um presidente amigo a promover uma causa social que aparentemente lhe seria completamente alheia, não tem importância suficiente para figurar nem em nota de rodapé.

Esperemos que tenha sido distracção minha.

Partidos

Se fossemos todos menos inteligentes, talvez conseguíssemos viver com escolhas monocromáticas, por exemplo: Ter uma religião e, por isso, ser contra as outras. Ser de um clube e, por isso, ser contra os outros. Ter uma sexualidade e, por isso, ser contra as outras. As pessoas que são assim, são estúpidas!
InsertBrainNão tenho nada contra estúpidos, valorizo-os como quaisquer outros e, às vezes, até faço parte desse grupo, mas sem deixar de tentar sempre excluir-me.
Fazer das fraquezas força, não é o mesmo que ter orgulho nas fraquezas.
Percebo as simpatias clubísticas e até as picardias entre clubes, mas achar verdadeiramente que as pessoas de outro clube são diferentes só por isso… é estúpido.

Será preciso repetir tudo o que disse mudando “clubes” para “partidos”? Ou conseguiremos aprender com analogias?

 

 

Verdade, ecologia e Nicolas Hulot

EcologiaDinheiro

Em nome da coerência e também para evitar ilusão de que o trabalhoecológico imprescindível está a ser feito, Nicolas Hulot, ex-ministro do ambiente francês, demitiu-se desiludido com a sua impotência para mudar o que devia já ser prioritário e até obrigatório.

 

NicolasHulot

Há muito que pequenas medidas são tomadas para minimizar as violências ecológicas a que submetemos o planeta, mas a coragem para as medidas verdadeiramente importantes parece sempre faltar.

Acordemos!

Turismo (ou identidades a desaparecer)

Porto1O ser humano sente-se impelido a viajar.

Gostamos de ter a nossa terra, a nossa casa, as nossas raízes..  mas também gostamos de conhecer novas paragens, outros lugares, diferentes culturas, que nos permitem crescer e sonhar.

Assim, ao partir para determinado local, procuramos o que é típico e tradicional. O que é original de determinada zona. Os seus costumes, as expressões do seu povo, o seu modo de interagir, viver, ser. Deste modo podemos crescer conscientes da variedade pluricultural do mundo e redescobrir-mo-nos em cada instante.

Em Portugal, nada é mais típico que o Porto. A origem do nome da pátria está enraizado no nome da invicta, o sotaque invoca os primórdios da nossa língua e a localização faz a transposição entre a nossa “ruralidade” e “globalidade” através do Douro até ao mar.

Toda a gente fala que o Porto tem a sua própria identidade.

Mas de onde vem essa identidade?

Esta pergunta vem no seguimento da notícia de que a cidade do Porto está entre os paraísos que os turistas estão a destruir.

É mais que visível que o Porto é uma cidade em transformação. Toda a zona do Porto e do Norte tem sentido, de alguns anos a esta parte, um aumento do investimento nas mais variadas atracções turísticas. Isto é mais evidente dentro da cidade do Porto. Aí, o que era pitoresco e original está a ser invadido pela massificação turística.

Não sou saudosista, considero o Porto agora muito mais seguro, limpo, avançado. Contudo, a pressão imobiliária e turística que se sente leva à existência de abusos sociais e à desertificação de habitantes. Mas tudo tem vários pontos de vista e, embora rendas de 1000€ sejam incomportáveis para a maioria dos portugueses, rendas de 25€ também o são para proprietários de imóveis. E se uns têm o dever de arranjar a sua propriedade, os outros também deviam ter de estimar a sua habitação e pagar um preço justo por ela, ou seja, garantindo os direitos quer dos proprietários quer dos arrendatários. Sem que houvesse especulação imobiliária.

Se me perguntarem da minha cidade, respondo que o Porto está na moda. Que apesar de parecer invadida por turistas, dos aumentos exorbitantes do preço de alguns bens e de já não se ouvir tanto o “portuense”, soube redefinir-se como destino estimado e amado além fronteiras.

E sendo assim, a identidade é algo que se constrói, não sendo imutável. O Porto mantém a sua identidade amadurecendo-a.

Afinal, o Porto é só uma imagem do que é SER português.

Burocracia (ou o jogo do empurra)

Andre05

Em Portugal é comum a “culpa morrer solteira”.

Com o incêndio em Monchique, vem à memória o passado recente de Pedrógão. Como não vir? No entanto faz sentido perguntar o que foi feito.

Todos ouvimos que havia multas para quem não limpasse os seus terrenos. Basta andar um pouco em estradas nacionais para ver que essa medida não resulta. E muitas vezes (serão talvez até a maior parte das vezes?) os terrenos não pertencem a proprietários privados.

Este ano o clima até nos ajudou. Mas como já se percebeu, foi uma oportunidade perdida de reorganizar as nossas manchas florestais e meios de combate aos incêndios.

A grande culpa? Só podemos considerar a burocracia. Ou como o atraso nas “prevenções” resulte em resultados finais iguais aos de sempre.

Burocracia… ou o jogo do empurra de responsabilidades. Ou como deixar arder Portugal.

Integridade (ou burrice)

Sou eu que sou burro?

Há uma indignação generalizada pelo facto de Ricardo Robles poder lucrar uns milhões com a venda de um imóvel.
Por alguma razão que desconheço, acha-se que ser de esquerda e ser capitalista não é conciliável. – Isto até pode ser uma discussão interessante, mas neste caso o essencial não é se o espécimen em questão é caviar ou podre.
Ricardo_RoblesRicardo Robles é vereador do urbanismo para a cidade na qual comprou um imóvel em 2014 por menos de 10% (347 mil euros) do valor que lhe é atribuído em 2017 (5,7 milhões de euros). Claro que é preciso contabilizar o investimento de 1 milhão de euros que segundo o vereador lá foi feito, mas uma valorização superior a 15 vezes do valor inicial é… invulgar! Isto não é ilegal, é só uma excelente capacidade de negociação!

É verdade que o dito vereador tem a vergonha de uma Cicciolina – lembro que o imóvel em questão foi comprado à segurança social -, mas mais chocante do que isso é o facto de tudo isto estar previsto na lei! Nada disto é ilegal!

Mas se um vereador pode fazer negócios destes no seu pelouro, o que é que impede o ministro da economia de jogar na bolsa? E um desportista de apostar contra si próprio? E um administrador público de vender património do estado por um valor várias vezes inferior ao real?
Pelos vistos nada!!

Aquele que não percebe como é que isto é possível e que se recusa a fazer coisas deste tipo quando tem oportunidade, deveria ser considerado integro e decente, mas afinal é só estúpido e ingénuo.

Oposição

Sabem o que é que era giro?

Deixar de chamar oposição aos partidos que não estão no exercício de funções governativas.

A função dos partidos, ao contrário do que se pensa, não é estar no poder ou no oposto a este. A verdadeira e nobre função é a causa pública.
Para se defender o que se acha certo para o bem comum, é preciso muitas vezes concordar com outras ideias que não as nossas. Parece uma lapaliçada, mas basta olhar as propostas e votações do nosso parlamento para se ver que a origem da ideia é muitas vezes mais importante do que a sua validade própria.