PSD e Centro

Continua a parecer estranho, para alguns analistas políticos, que Rui Rio, líder do PSD, diga que o partido não é de direita.
Pondo de parte que essa classificação é totalmente desadequada e ocultista, convém lembrar que PSD quer dizer Partido Social Democrata; Será de esperar que este partido seja outra coisa que não “Social-Democrata”?
Ser “Social-Democrata” não significa ser socialista, nem significa ser liberal; é estar no meio, exactamente aí, onde está a virtude.
Os estratégias dizem que o PSD tem que ir mais para a direita, porque é aí que está “o seu espaço natural” e é aí que se estão a formar radicalismos que precisam de ser combatidos. Não é. O PSD deve ficar exactamente no meio, mesmo que, aparentemente esse espaço esteja já ocupado.
Há mil razões para o PSD dever ficar no centro, não só porque é essa a política certa, mas porque é essa a sua matriz e, ao contrário do que podem dizer analistas, opinadores ou outros actores políticos, não deveriam ser as sondagens a decidir programas. Os partidos devem ter programas e ideologias coerentes, mesmo que isso implique perder eleições, porque se os partidos servem apenas para chegar ao poder, mesmo que sem noção do que fazer com esse poder, então não servem para nada.

Passaporte de vacinação

Há uma ideia nalgumas mentes europeias sobre criar um passaporte de vacinação. Seria uma espécie de atestado de vacinação, que permitiria aos seus portadores viajar.
Não pondo em causa os eventuais méritos desta solução, há problemas que não podem ser ignorados.
A única forma de descriminar com justiça os “vacinados” dos “não-vacinados” seria garantindo que todos teriam oportunidade de ser vacinados.
Alguns dirão que isso é impossível porque não há capacidade para produzir tantas vacinas em pouco tempo. Mas isso é uma escolha. É facílimo produzir muito mais vacinas, muito mais depressa.
Implicaria partilhar fórmulas e meios de produção, mexer em patentes e propriedade intelectual de empresas, mas seria possível.
É uma escolha e é bom que se assuma.
É legal? Sim.
É decente?

Ventura Trump

Quando escrevo esta crónica não sei ainda quem ganhou as eleições nos estados unidos.
Mas sei que nas próximas eleições presidenciais em Portugal, André Ventura terá um resultado muito, mas muito significativo.
Conheço pessoas que votarão nele e, quem sabe, votarão no seu partido – o Chega – nas legislativas que virão a seguir.
As pessoas que votarão nesse fala-barato são as mesmas que votariam Trump. Não são menos inteligentes, nem menos cultas do que quaisquer outros eleitores.
Simplesmente recusam-se a ouvir contra-argumentos, como os fanáticos de clube de futebol ou religião; recusando quaisquer discussões acerca de deméritos que possam ter.
A única maneira que existe de combater isto (e terá que ser feito), será compreendendo estas pessoas.
Trump, Ventura e os seus apoiantes devem ser tratados como crianças, é preciso descer do pedestal da razão e perceber os seus anseios para, só depois, lhes explicar outros pontos de vista, com a mesma paciência e esperança com que se ensina um bebé.

A lógica explica muito pouco, a empatia explica muito mais; a prova disto é que nos parecem parvos os que acreditam que a Terra é plana, mas parecem bondosos os que acreditam em Deus.

Trumpoia

Houve uma tentativa de “golpe de estado” no Michigan (Estados Unidos).
Há quem ache que Trump é um ditador em potência, esquecendo que nunca nenhum ditador se tornou nisso de um dia para o outro.
Trump já é um ditador. É bom que seja também um ditador frustado.

Donald_Trump_is_hitlerForam presas pessoas por conspirarem contra a vida da senadora do Michigan incentivadas pelo presidente/ditador do país.
Felizmente, desta vez, o ataque que estava planeado – consistindo num ataque de 200 homens ao capitólio da cidade – não sucedeu.

Trump – o incendiário, depois do incidente, veio atacar a Governadora Gretchen Whitmer, dizendo que foi “o meu departamento de justiça” que prendeu os conspiradores.
Mas continua-se a achar que o homem é só um narcisista inconsequente.

Há milhentos especialistas que sabem qual é a maneira certa de lidar com Trump; eu não.
Faria o que a consideração que tenho a algo tão fedegoso permitiria: descarregar o autoclismo.

Cidadania e disciplinas

A ideia de que podemos educar as nossas crianças sem influência externa, além de perigosa é ingénua.
Um filho não é propriedade dos pais. É sua responsabilidade, mas também da comunidade. Ambos devem influenciar a criança no sentido que pareça positivo.
O facto de se discordar dos conteúdos de uma disciplina não é, nem pode ser, razão para se negar à criança a frequência dessa disciplina. Será, isso sim, motivo para que, quando essa criança chega a casa, sejam discutidos os conteúdos das aulas e os seus méritos.
Não é por ignorarmos algo, que deixa de existir. Temos que conhecer para poder enfrentar.
A obrigação do estado para com todas as crianças é certificar-se que todas cumprem a escolaridade mínima obrigatória, mesmo que para isso tenha que recorrer à repugnante retirada dos filhos aos seus pais.
Isto deve aplicar-se aos ciganos, mesmo que desrespeite as suas “tradições”, bem como aos que possam ter “objeções de consciência”, simplesmente porque a lei e os direitos das crianças são muito mais importantes do que quaisquer parvoíces individualistas.

Liberdades Oprimidas

Na liberdade de quando nasceste
Foste logo oprimido,
E desde logo soubeste
Que este mundo é fingido.

Dizem-te que tens toda a liberdade
E podes fazer tudo que te apeteça!
Mas isso só é verdade
Desde que com com eles isso se pareça.

“Podes dizer o que quiseres
Se a tua filosofia for como a nossa”
És livre para andar no rebanho
Se a tua voz não fizer muita mossa.

Por isso andas calado
As tuas expressões são contidas.
Cuidado, não ofendas os demais…
Tens as tuas liberdades oprimidas.

Vai daí que… (ou as certezas do não saber)

000019_1Cada vez mais se valoriza opiniões que afinal não o são. Ideias ou ideologias sem ideia nenhuma vão servindo de alimento ao ego das massas. As pessoas só ouvem o que lhes interessa e, pelo que se vê, pouco ou nada lhes interessa.

E assim vamos andando neste novo normal, que de normal pouco ou nada tem.

E são certezas que mudam todos os dias.

Uma vez li que só pode mudar de opinião alguém que tem opinião. Mas de onde vem essa opinião? Vai daí que vamos andando com quem não quer a coisa, reclamando por ter e não ter, por ser e não ser… afinal vamos andando sendo pessoas.

Abençoada ignorância, que onde quem tem um saber, é rei.

Saber receber

LisboaComo muitos lisboetas cosmopolitas, gosto de ver turistas a apaixonar-se pelo nosso país, mas como muitos outros também fico frequentemente irritado com a presença massiva dos mesmos.

Numa conversa tida há poucos dias no Chiado, com um conhecido cronista e amigo, deparei-me com o dilema que tinha entre as suas posições de esquerda e a opinião real que tinha acerca do que chamou “Invasão de Brasileiros”.

Sendo um “homem de esquerda”, como gosta de retratar-se, a verdade é que tinha sentimentos que ele próprio descrevia como xenófobos para com o brasileiros. Isto acontece porque, segundo ele, em pouco mais de dois meses, houve uma enchente de quadros brasileiros a entrar para empresas portuguesas e, além disto, a quantidade de “portugueses com sotaque” que polulam nos cafés da baixa pombalina é cada mais impressionante.

É importante ter noção de que não existem xenófobos, nem racistas, nem machistas, nem outras coisas que tais. Todos temos tudo isto em nós e o seu oposto também.

Nada disto é especialmente mau, definitivo, ou sequer definidor.

Os actos efectivamente realizados e não o que pensamos fazer, são o que nos define.

Tal como não é traição para um homem casado pensar nas mamas da Pamela Anderson, também não é xenofobia pensar que os estrangeiros estão a ocupar o país.

Saibamos receber, como sempre soubemos, apesar de irritações que deverão ser necessariamente inconsequentes.

Valores

Hoje, em jeito de balanço, um alto funcionário de uma empresa de recrutamento, enquanto fazia o balanço do ano, vangloriava-se de ter contratado meio-milhar de pessoas, que colocou nas mais diversas posições.
A especialização é talvez o motor para que tudo seja feito com maior eficácia, mas será provavelmente também a razão para a quantidade impressionante de inutilidade que resulta de toda essa eficácia.

As empresas contratam empresas para recrutarem os seus trabalhadores, contratam empresas para fazer a limpeza, contratam empresas para levar água, para servir café, para limpar vidros, para fazer contabilidade, para desentupir canos, pôr óleo em dobradiças.

Enquanto a única coisa que importa a um CEO for fazer crescer lucros, não vamos conseguir ganhar como sociedade.
O dinheiro tem função, mas não valor em si próprio.
Empresas de fazer dinheiro, não têm qualquer valor, a não ser que os valores das pessoas se resumam a dinheiro.

Herança

Qualquer governo decente deve ter procupações com um horizonte temporal de pelo menos 3 gerações.
Quando se faz algo a pensar no futuro devemos pensar no que deixamos aos netos dos nossos netos.

MãoVaziaIsto não significa que se deve sacrificar o presente em benefício do futuro, significa apenas que não se poderá fazer o contrário. Os benefícios e prejuízos deverão ser distribuídos pelas gerações.

Vivemos numa época de liberdades individuais e, talvez por isso, tendemos a pensar pouco num futuro com horizonte superior à nossa esperança de vida.

Temos pensar honestamente nos recursos que utilizamos e na forma como os repomos. O nosso saldo não termina nem começa com a nossa vida. A nossa situação deve-se em grande parte às circunstâncias anteriores, independentemente de serem boas ou não. Assim, será apenas natural perceber que o que deixamos influenciará os que ficam para sempre.