Jornalismo (ou dormir)

22 Novembro 2017. (Patrícia de Melo Moreira/AFP/Getty Images)

O presidente de Cabo Verde (o paraíso na terra) esteve em Portugal e participou, juntamente com Marcelo Rebelo de Sousa, numa acção de voluntariado no Banco Alimentar.

Se Donald Trump soltar um gás, os telejornais abrem de imediato com repórteres em directo para avaliar o impacto ambiental da bufa presidencial. Como a economia de Cabo Verde é irrelevante quando comparada com a de outros colossos mundiais, acha-se que alguém que fez mais pela justiça e democracia de vários países (Cabo Verde, Portugal, Timor-Leste) e que têm ainda a humildade de ir “ajudar” um presidente amigo a promover uma causa social que aparentemente lhe seria completamente alheia, não tem importância suficiente para figurar nem em nota de rodapé.

Esperemos que tenha sido distracção minha.

Partidos

Se fossemos todos menos inteligentes, talvez conseguíssemos viver com escolhas monocromáticas, por exemplo: Ter uma religião e, por isso, ser contra as outras. Ser de um clube e, por isso, ser contra os outros. Ter uma sexualidade e, por isso, ser contra as outras. As pessoas que são assim, são estúpidas!
InsertBrainNão tenho nada contra estúpidos, valorizo-os como quaisquer outros e, às vezes, até faço parte desse grupo, mas sem deixar de tentar sempre excluir-me.
Fazer das fraquezas força, não é o mesmo que ter orgulho nas fraquezas.
Percebo as simpatias clubísticas e até as picardias entre clubes, mas achar verdadeiramente que as pessoas de outro clube são diferentes só por isso… é estúpido.

Será preciso repetir tudo o que disse mudando “clubes” para “partidos”? Ou conseguiremos aprender com analogias?

 

 

Todos por alguns

O Fisco passará a cobrar as cotas em atraso devidas às ordens profissionais.

Quando os transportes de Lisboa e do Porto têm deficits quem os paga é o estado.

O que é que isto tem em comum?

Em ambos os casos temos o estado (portanto todos os contribuintes) a servir interesses particulares.

Não é compreensível que todos tenhamos que pagar para que os pançudos do Porto e Lisboa para ssam ter transportes rápidos e baratos enquanto um “cidadão” do interior tem, na melhor das hipóteses, uma camionete por dia!

Mas como o pessoal do interior não faz barulho, que se lixem…

Verdade, ecologia e Nicolas Hulot

EcologiaDinheiro

Em nome da coerência e também para evitar ilusão de que o trabalhoecológico imprescindível está a ser feito, Nicolas Hulot, ex-ministro do ambiente francês, demitiu-se desiludido com a sua impotência para mudar o que devia já ser prioritário e até obrigatório.

 

NicolasHulot

Há muito que pequenas medidas são tomadas para minimizar as violências ecológicas a que submetemos o planeta, mas a coragem para as medidas verdadeiramente importantes parece sempre faltar.

Acordemos!

Saber realizar (ou manipulação)

Há uma irritação que me atormenta há muito tempo: A filmagem de performances de dança e movimento em programas de televisão.

Por alguma razão os realizadores de programas televisivos fazem escolhas de planos aleatórios quando estão a filmar performances com muitas dinâmicas num palco.

Poder-se-ia argumentar com a “desculpa” do directo mas isso, além de não justificar os casos em que os programas são gravados, também seria debelar a razão de ser dos ensaios.

Quero acreditar que a manipulação de planos e imagens, quando errada, é apenas devida a incompetência, mas a verdade é que as luzes, planos e até ordem pela qual são apresentados os candidatos a concursos de talentos podem ser pelo menos tão influentes como a performance em si.

Isto:

não é igual a isto:

e o entanto são fotografias do mesmo momento

Integridade (ou burrice)

Sou eu que sou burro?

Há uma indignação generalizada pelo facto de Ricardo Robles poder lucrar uns milhões com a venda de um imóvel.
Por alguma razão que desconheço, acha-se que ser de esquerda e ser capitalista não é conciliável. – Isto até pode ser uma discussão interessante, mas neste caso o essencial não é se o espécimen em questão é caviar ou podre.
Ricardo_RoblesRicardo Robles é vereador do urbanismo para a cidade na qual comprou um imóvel em 2014 por menos de 10% (347 mil euros) do valor que lhe é atribuído em 2017 (5,7 milhões de euros). Claro que é preciso contabilizar o investimento de 1 milhão de euros que segundo o vereador lá foi feito, mas uma valorização superior a 15 vezes do valor inicial é… invulgar! Isto não é ilegal, é só uma excelente capacidade de negociação!

É verdade que o dito vereador tem a vergonha de uma Cicciolina – lembro que o imóvel em questão foi comprado à segurança social -, mas mais chocante do que isso é o facto de tudo isto estar previsto na lei! Nada disto é ilegal!

Mas se um vereador pode fazer negócios destes no seu pelouro, o que é que impede o ministro da economia de jogar na bolsa? E um desportista de apostar contra si próprio? E um administrador público de vender património do estado por um valor várias vezes inferior ao real?
Pelos vistos nada!!

Aquele que não percebe como é que isto é possível e que se recusa a fazer coisas deste tipo quando tem oportunidade, deveria ser considerado integro e decente, mas afinal é só estúpido e ingénuo.

Oposição

Sabem o que é que era giro?

Deixar de chamar oposição aos partidos que não estão no exercício de funções governativas.

A função dos partidos, ao contrário do que se pensa, não é estar no poder ou no oposto a este. A verdadeira e nobre função é a causa pública.
Para se defender o que se acha certo para o bem comum, é preciso muitas vezes concordar com outras ideias que não as nossas. Parece uma lapaliçada, mas basta olhar as propostas e votações do nosso parlamento para se ver que a origem da ideia é muitas vezes mais importante do que a sua validade própria.